Depois de passado algum bocado de tempo, saber o que somos chega a ser uma tarefa árdua - talvez por causa das coisas que deixamos pra trás, ou das coisas que inevitavelmente caem no esquecimento.” Não que esta seja uma afirmação absoluta, talvez haja alguma verdade nisso.
Sobre o que somos ou deixamos de ser, a nossa essência se perpetua.
“O Apanhador No Campo De Centeio” é o meu livro favorito de sempre; esta é a terceira vez que leio e, não foi por acaso, meu cunhado ofereceu-me este dispositivo de leitura que reproduz com fidelidade as imagens de uma folha orgânica, onde podemos embutir nele uma data de livros digitais nos mais variados formatos - Kindle.
A primeira coisa que fiz foi agradecê-lo, logo depois adicionei nele alguns livros do meu interesse.
Quando relemos um livro que adoramos, a leitura nos remete a tudo que nos fez gostar dele na primeira instância, tudo mesmo. Conheci “O Apanhador…” quando lia um outro livro… um dos personagens havia feito menção deste livro em particular. Marquei o título nalgum lugar, só depois agendei a leitura.
A coisa que mais se destaca nesse livro é a simplicidade lexical; é como se o autor escrevesse para uma audiência juvenil, então, não foi necessário engrossar nos palavreados (impressão que tive); mas, apesar da simplicidade, todas as palavras não deixam de transmitir a complexidade dos personagens e do universo onde eles habitam, até a animosidade está em perfeita harmonia com a narrativa trágica.
Sobre o enredo, o livro é narrado na primeira pessoa: todos os eventos são descritos por esse personagem carismático pra burro. A sinopse descreve a estória de um adolescente de 16 anos ou coisa parecida, o Caulfield. Foi expulso de um internato, tudo por causa do baixo rendimento escolar. Isso bem no final do ano letivo. Antes de voltar pra casa e enfrentar os pais, e/ou encarar a realidade das coisas, ele resolve pernoitar em vários pontos urbanos da cidade de Nova York e evitar temporariamente o amargo da situação.
Sobre o personagem protagonista, como disse anteriormente, ele se apresenta muito carismático, mas, ainda assim, dentro da trama percebe-se que é simplesmente um adolescente a passar por uma fase difícil - uma crise, se assim o posso dizer. Com várias dificuldades de adaptação, transtornos de identidade, distúrbios de humor; nada lhe resta, senão adotar um comportamento passivo-agressivo pra cima de todo mundo que não seja da sua conveniência. É irônico como, para alguém que foi expulso da escola só mesmo por causa do baixo rendimento acadêmico, percebe-se com o andar da carruagem que é tudo por falta de vontade. É um personagem inteligente, esnobe inclusive, e com um senso de humor super satírico. Está sempre envolvido em situações caricatas, a ver se consegue extrair algum gozo da vida. Depois que extrai todo o tutano da situação, quando percebe que nada mais lhe alegra, a depressão toma conta dele como consequência e faz dele refém. Então, tudo que ele tem a fazer é sobreviver a todas as hostilidades daquela cidade, antes de voltar pra casa.
Honestamente é um livro muito divertido de ler, mas com uma carga dramática-emocional de 2 toneladas. Depois que terminei de ler, liberei algumas lágrimas que rasparam o meu rosto porque amo muito esse livro. Tipo, amo muitoooooo. Me vejo a revisita-lo sempre que sentir saudades.
Outra coisa que achei irônico durante essa releitura foi ter percebido que, bem no final, foi um professor, a última pessoa a quem ele recorreu para buscar auxílio, quando ele se via no fundo do poço, sem mais alternativas e esperanças - pra alguém que parecia estar nem aí para o mundo acadêmico e as pessoas à volta.
Curiosidades: Dizem que essa obra inspirou culturalmente vários movimentos nos Estados Unidos, depois que se popularizou; inclusive alguns escritores pegaram emprestado traços do personagem principal para desenhar outros personagens. Também dizem que o movimento beat e mochileiros, foram todos muito influenciados por essa obra prima.
Aaaah o dude que alvejou fatalmente o John Lennon, foi pego com uma cópia deste livro no bolso.

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